sexta-feira, 4 de novembro de 2011

Exercício número 3

Odeio-o. Acabei de o ver e já o odeio. Quem julga ele que é a olhá-la assim com olhos de carneiro mal morto, como se ela fosse um pedaço de carne. Que raiva! É bonita, sim, muito bonita, mas aquele idiota não vê que ela não é para o seu bico; não se toca; não vê aquele olhar puro, aquela pele sedosa e alva, aquele porte altivo e elegante. Não vê que nada ali se coaduna com a grosseria e a lascívia que o caracterizam!

Conhecia-lhe tão bem os gestos lentos e premeditados de quem detetou uma vítima e avança sobre ela sorrateiramente, descortinava o olhar malicioso que ele sabia estar por detrás daqueles óculos escuros usados para esconder as intenções que os seus olhos a descoberto deixariam revelar, adivinhava a satisfação que aquele jogo do gato e do rato lhe estava a dar: a sensação de ter encontrado a presa ideal, de arquitetar a armadilha de forma bem ardilosa e aguardar sem pressas que a presa morda o isco; sabia tão bem como era essa espera, conhecia tão bem as sensações de euforia que causava esse jogo solitário de caçador. Por isso, odiava-o. Odiava-o com todas as foças do seu ser. Ele também já fora assim. Também já olhara um rosto feminino com sofreguidão, tateara com o olhar guloso as formas de uma mulher no autocarro, roçara acidentalmente (e tão intencionalmente!) a perna de uma mulher a pretexto de uma paragem brusca do autocarro  ou da queda de uma folha de jornal. Também já o fizera, é verdade!

Mas, agora, quem ali estava ao seu lado, no autocarro, a ser alvo da volúpia desregrada daquele matreiro, era a sua filha. A sua filha. E a sua filha era sagrada, sagrada. Por isso, tinha vontade de esmagar aquele ser desprezível, nojento, que estava a conspurcar a inocência e ingenuidade da sua cria.

Pauloexmarialva

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