quarta-feira, 2 de novembro de 2011

A conferência

              Em dia de temporal desabrido, o céu abrindo as águas, saí para sítio certo e edifício incógnito. Levava-me o sexto sentido. Não sei o que é, apesar das minhas amigas afirmarem ser a intuição… feminina. Intuição, esquisito, e os machos não têm? Ou isso é coisa de sentir e não ter? Ou ser?
Reflectindo durante a viagem, com o limpa pára-brisas no máximo e luzes em pleno, até piscando, veio-me uma certa euforia pelo retomar dos meus projectos. Interrompidos pelas preocupações de mãe pelos seus meninos. Eles crescem…mas são sempre meninos. Há tempos fiquei perplexa pela preocupação de um ancião por sua filha, entre os cinquenta e os sessenta, ao que parece bem viva e ondulante. Tinha-se apaixonado, a tal ponto de se estar a preparar para o divórcio. Aconselhei-o. Não se preocupe, aceite as suas escolhas. Diga-lhe, porém, para viver a paixão de forma breve, se não adoece. Sim, ela não está em idade de ficar doente por coisas dessas. Haverá momentos de volúpia superior que merecem ser vividos sem a necessidade do ferrete.
Nos interstícios da intempérie encontrei a escola. Senti meu coração a rejubilar. Ao passar o portão olhei para o relógio. Vinha a destempo, por adianto. Percorri lentamente os corredores de lay-out frio e minimalista. Minimalista não por acaso, é claro. Não poderia haver algo que desviasse a objectividade do Saber. Assusta-me esta permanente procura do rigor, Não será tanto a questão do rigor mas muito mais o constante e firme apelo à nudez de emoções na produção da ciência. Fere-me este modus operandi. Sou uma piegas por natureza.
Já no secretariado da conferência passo os olhos pela composição dos painéis atentando às comunicações que iriam ser apresentadas. Empolguei-me quando assestei o meu olhar no seguinte título “A mão que dá a rosa também fica perfumada”. Que beleza! Título poético mas compreensível. Fiz questão de assistir à apresentação. Fiquei desde logo rendida, não só pelo título, como pela simplicidade e síntese do trabalho. Não esquecendo, má fortuna minha, a jovem figura da autora levando-me lá para trás, recordando os tempos da moçoila que já fui. Tal deslumbramento não me inibiu da crítica, quase pecando pela traição às emoções que defendo e gosto de ler vertidas em herméticos textos de produção científica.
 Acabou o dia. Ficou-me uma certa tristeza. Não consegui partilhar empatias várias que se manifestaram em breves sorrisos e trocas de olhares…

Vénus Liberta

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