domingo, 30 de outubro de 2011

Na cadeira descobrindo a multidão

como é triste vê-lo,
sozinho, a arrastar-se na cadeira
vê-lo triste, na cadeira,
a arrastar-se sozinho
na cadeira, sozinho,
é triste vê-lo a arrastar-se
sozinho na cadeira a arrastar-se,
como é triste vê-lo

e um grito irrompe pulando
na cadeira que a multidão aperta
apertado na cadeira,
no meio da multidão, irrompe num grito
ai, ai, deixai de o apertar gritando
pulo perdido na multidão e cadeira no ar
no ar voando seu grito de Ipiranga,
em cima da cadeira à cabeça da multidão
e nas curvas que o derretem
sente Vida…mas dêem-lhe espaço

Cristóvão Sá Pimenta
Re-escrito
domingo, 30 de Outubro de 2011

sábado, 29 de outubro de 2011

“…Do tempo em tal sazão, que soe ser fria”

“…Do tempo em tal sazão, que soe ser fria”
em noite de Janeiro feita sofrimento
esperando em desespero o novo dia
crendo que virá então o novo alento.

Crendo que virá então o novo alento
que abrirá e transformará teu coração.
Deixando para trás profundo tormento
recuperando forças, combatendo a exaustão.

Exaustão que te deixa vazia e dormente
levando-te a pensares no precipício
precipício que é negro e fim de linha.

Que se transfira para ti força minha
para lutares e viveres radiante Solstício
com o vale fértil de girassóis, resplandecente.

Sá Pimenta

Procurando desregular-me

         Reclamo um regulador para controlar as minhas obrigações domésticas. E estas tais que vão desde o meu envolvimento nas actividades muitas vezes reconhecidas como atribuídas à outra parte – questão de género -, até aquelas, também muito solenes e festivas, que apelam ao plano horizontal, ou não, em superfície a gosto do par.
       
Quero um regulador para vigiar meus comportamentos gastronómicos. E já agora vínicos.

Exijo um outro, qual sinaleiro, para me mostrar a luz vermelha perante os péssimos resultados dos controlos laboratoriais e dos exames dos gabinetes de radiação e irradiação. Até de outros que alguém – até eu, quem sabe -inventa que tenho de fazer. Creio assim ter uma mais forte probabilidade de, quando partir desta para melhor, ir cheiinho de saúde. O que me dará um gozo que já antecipo.

Gostaria de ter um outro regulador. Forte, valente, arrojado e proactivo (palavra bonita esta, não parece?). De uma sagacidade tal que nada lhe escapará sobre o mercado financeiro, acrescido com um permanente diagnóstico do estado da economia real. Claramente alguém muito melhor que o Madoff.  E de cuja acção eu não poderei deixar de prever, com segurança, sublinho, prever com segurança, como melhor poderei fazer as minhas aplicações financeiras.

Já agora, um regulador para as questões culturais. Tarefa principal e árdua. Tendo em atenção o meu orçamento familiar e ciente dos meus gostos garantir as melhoras escolhas. Reduzo-lhe as dificuldades: espectáculos de bailado podem ser as últimas opções. Só se entender que a minha presença num ou noutro em particular irá assegurar benesse futura. Não precisa ficar preocupado com acusações que tempo adiante poderá ditar. Tipo, proporcionar favorecimento pessoal e corrupção activa ou passiva. Isto de ser activa ou passiva é importantíssimo. Tanto ou mais importante do que, naquelas relações ditas contra-natura, aquela posição ou melhor disponibilidade, ser activo ou passivo, parece ser fundamental. E se isso acontecer – as acusações… -, para o que vai acontecendo, já não estarei por cá para assistir. E se estiver, arco com as consequências, na certeza porém que vou de tal maneira esticar a corda que estico eu ou estica o processo ou processos. Até à prescrição. Se ainda cá estiver e a prescrição não tiver ocorrido, consiga eu e ele – que não pense que se safa – arte e engenho para ainda aguentar a magnanimidade e eficiência da nossa justiça por muito tempo, È claro que, numa situação destas, extrema como é fácil de adivinhar, o discípulo do Madoff já me tinha conseguido encaixe financeiro tal, sem qualquer sinal de enriquecimento ilícito – vad retrum – que todos argumentos, instrumentos, vírgulas e a suas ausências, seriam utilizadas em defesa da minha honra e bom nome. Isto não é cultura regional, não senhor, de todo. Muito mais pequenos focos de manifestação de poder pacóvio, só isso. Nada de novo, de resto. E neste deambular perdi-me na definição do perfil do meu regulador cultural. Decidido que, bailados, só naquela situação. Depois dos bailados e no sentido ascendente, alguma música dita erudita – teríamos que conversar caso a caso -, também não. Claramente fora da lista vernissages. Alto aí, uma excepção. Só se estiver prevista a presença de uma daquelas figuras. Das tais que possam ajudar numa situação futura. Estão a ver? Já estou cansado de falar do regulador cultural.

        Vamos lá ver se arranjo um outro para me pôr nos eixos. Ah! Lembrei-me. Um regulador motorizado. Não, nem vem de mota, nem de lambreta, nada disso. Este vai estar atentíssimo a gestão da minha frota automóvel e colecção de motos. Tudo que ela implique. Limpeza, manutenção, compra, venda, seguros e já agora dos seguros. E se ele quiser inventar mais uma outra tarefa que avance.

        Finalmente, ia-me escapando um outro que é crucial no meu equilíbrio sistémico – esta palavra também é bonita, não é? Então este, em termos de exigências de atenção perante tudo que o rodear, terá de ser “o maior”. Irá estar, unicamente, preocupado com as situações das minhas relações familiares e de amizade. Prioritariamente, é evidente, com o imediato círculo familiar, e depois, alargando o âmbito de intervenção até reencontrar o meu velho amigo da tropa, o Antunes da Meia-Via, no Entroncamento.

        Já viram a quantidade de postos de trabalho que irei criar. E tudo com pessoas que irão dar valor acrescentado ao meu ser. Isto garantidamente. Com esta equipa de notáveis poderei concretizar um velho sonho. Demitir-me da vida. Mas tenho que ter cautela, pois às tantas eles não regulam nada. E poderei ir mesmo para o outro lado ou bato com os costados numa choldra. Então a melhor solução é contratar o regulador dos reguladores. Então sim. Estava prontinho, de todo, para a desregulação.

        Mas…porra!!!. Eu quero viver. Eu quero Vida. Que chatice. Vou ter de resolver este conflito existencial. Aí vem mais outro regulador. Isto não pára, é?

Sá Pimenta

LARGUEM TUDO, NOVAMENTE


Primeiro Manifesto Infrarrealista

Desde os confins do sistema solar há quatro horas-luz; desde a estrela mais próxima, quatro anos-luz. Um desmedido oceano de vazio. Mas estamos realmente certos de que há somente um vazio? Unicamente sabemos que neste espaço não há estrelas luminosas; e se existissem, seriam visíveis? E se existissem corpos não-luminosos ou escuros? Não poderia acontecer nos mapas celestes, igualmente aos da terra, que estejam destacadas as estrelas-cidades e omitidas as estrelas-povoados?
- Escritores soviéticos de ficção científica arranhando-se na cara à meia-noite.
- Os infrassóis (Drummond diria os alegres garotos proletários).
- Peguero e Boria solitários num quarto lumpen pressentindo a maravilha atrás da porta.
- Free Money
*
Quem atravessou a cidade e por única música teve os assovios de seus semelhantes, suas próprias palavras de assombro ou a raiva?
O tipo belo que não sabia
que o orgasmo das garotas é clitoral
(Busquem, não é somente nos museus que há merda) (Um processo de museificação individual) (Certeza de que tudo está nomeado, revelado) (Medo da descoberta) (Medo dos desequilíbrios não previstos)
*
Nossos parentes mais próximos:
os francoatiradores, os planeiros solitários que assolam os cafés dos mestiços da latino-américa, os massacrados em supermercados, em suas tremendas desjuntivas indivíduo-coletividade; a impotência da ação e da busca (a níveis individuais ou bem enlameados em contradições estéticas) da ação poética.
*
Pequeninas estrelas luminosas guiando-nos eternamente o olho a um lugar do universo chamado Os labirintos.
- Dancing club da miséria
- Pepito Tequila soluçando seu amor por Lisa Underground.
- Chupe-se-o, chupe-te-o, chupe-mo-no
-E o Horror
*
Cortinas de água, cimento ou lata, separam uma maquinaria cultural, a que o mesmo lhe serve de consciência ou o cu da classe dominante, de um acontecer cultural vivo, esfregado, em constante morte ou nascimento, ignorante de grande parte da história e das belas-artes (criador cotidiano de sua louquíssima história e de suas alucinantes velhas-artes), corpo que de imediato experimenta em si mesmo sensações novas, produto de uma época em que nos aproximamos a 200 km/h da privada ou da revolução.
“Novas formas, raras formas”, como dizia entre curioso e risonho o velho Bertold.
*
As sensações que não surgem do nada (obviedade de obviedades), senão da realidade condicionada, de mil maneiras, a um constante fluir.
- Realidade múltipla, marés a nós!
Assim é possível que por um lado nasçamos e por outro estejamos nas primeiras poltronas dos últimos estertores. Formas de vida e formas de morte passeiam entre si cotidianamente pela retina. Seu choque constante dá vida às formas infrarrealistas: O OLHO DA TRANSIÇÃO.
*
Enfiem toda a cidade no manicômio. Doce irmã, barulhos de tanque, canções hermafroditas, desertos de diamante, só viveremos uma vez e as visões a cada dia mais brutas e escorregadias. Doce irmã, passeio para Monte Albán. Apertem os cintos porque se regam os cadáveres. Um movimento a menos.
*
E a boa cultura burguesa? E a academia e os incendiários? E as vanguardas e suas retaguardas? E certas concepões do amor, a boa paisagem, a Colt precisa e multinacional?
Como me disse Saint-Just num sonho que tive faz tempo: Até as cabeças dos aristocratas podem nos servir de armas.
*
Uma boa parte do mundo vai nascendo e outra boa parte vai morrendo, e todos sabemos que todos temos que viver ou todos morrer: e nisto não há meio-termo.
Chirico disse: é necessário que o pensamento se alheie de tudo o que se chama lógica e bom sentido, que se alheie de todas as travas humanas de tal modo que as coisas lhe apareçam sob um novo aspecto, como que iluminadas por uma constelação aparecida pela primeira vez. Os infrarrealistas dizem: vamos cair de cabeça em todas as travas humanas, de tal modo que as coisas comecem a se mover dentro de si mesmas, uma visão alucinante do homem.
- A constelação do Belo Pássaro.
- Os infrarrealistas propõem ao mundo o indigenismo: um índio louco e tímido.
- Um novo lirismo, que na América Latina começa a crescer, a se sustentar em maneiras que não deixam de nos maravilhar. O começo do assunto é o começo da aventura: o poema como uma viagem e o poeta como um herói desvendador de heróis. A ternura como um exercício de velocidade. Respiração e calor. A experiência disparada, estruturas que vão se devorando a si mesmas, contradições loucas.
Se o poeta está imiscuído, o leitor terá que imiscuir-se.
“livros eróticos sem ortografia
*
Nos antecedem as MIL VANGUARDASD ESQUARTEJADAS DOS ANOS 60.
As 99 flores abertas como uma cabeça aberta.
As matanças, os novos campos de concentração.
Os brancos rios subterrâneos, os ventos violetas.
São tempos duros para a poesia, dizem alguns, tomando chá, escutando música em seus departamentos, falando (escutando) os velhos maestros. São tempos duros para o homem, dizemos nós, voltando às trincheiras depois de uma jornada cheia de merda e gases lacrimogênios, descobrindo/criando música  para os departamentos, olhando longamente os cemitérios-que-se-expandem, onde tomam desesperadamente uma xícara de chá ou se embriagam de pura raiva ou inércia os velhos maestros.
Nos antecede a HORA ZERO.
((Crie cafuzos e eles te morderão os calos))
Ainda estamos na era quaternária. Ainda estamos na era quaternária?
Pepito Tequila beija os mamilos fosforescentes de Lisa Underground e a vê afastar-se por uma praia onde brotam pirâmides negras.
*
Repito:
o poeta como um herói desvendador de heróis, como a árvore vermelha caída que anuncia o princípio do bosque.
- As intenções de uma ética-estética consequente estão empedrados de traições ou sobrevivências patéticas.
- E é que o indivíduo poderá andar mil quilômetros, mas ao largo do caminho ele o come.
- Nossa ética é a Revolução, nossa estética a vida: uma só coisa.
*
Os burgueses e os pequenos-burgueses estão em festa. Todos os finais de semana têm uma. O proletariado não tem festa. Somente funerais com ritmo. Isto vai mudar. Os explorados terão uma grande festa. Memória e guilhotinas. Intuí-la, atuá-la certas noites, inventar-lhe arestas e cantos úmidos, é como acariciar os olhos ácidos do novo espírito.
*
Deslocamento do poema através das temporadas dos motins: a poesia produzindo poetas produzindo poemas produzindo poesia. Não um corredor elétrico / o poeta com os braços separados do corpo / o poema deslocando-se lentamente de sua Visão a sua Revolução. O corredor é um ponto múltiplo: “Vamos inventar para descobrir sua contradição, suas formas invisíveis de negar-se, até esclarecê-lo”. Deslocamento do ato de escrever para zonas nada propícias ao ato de escrever.
Rimbaud! Volte pra casa!
Subverter a realidade cotidiana da poesia atual. Os encadeamentos que conduzem a uma realidade circular do poema. Uma boa referência: o louco Kurt Schwitters. Lanke trr gll, o, upa kupa arggg, sucedem em linha oficial, investigadores fonéticos codificando o uivo. As pontes do Noba Express são anticodificantes: deixem que grite, deixem que grite, (por favor, não vão pegar um lápis nem um papel, nem o gravem, se querem participar, gritem também), sendo assim, deixem que grite, pra ver que cara faz quando acabar, por qual outra coisa incrível passamos.
Nossas pontes para as temporadas ignoradas. O poema inter-relacionando realidade e irrealidade.
Convulsivamente.
*
Que posso pedir à atual pintura latino-americana? Que posso pedir ao teatro?
Mais revelador e plástico é parar em um parque demolido pelo smog e ver as gentes cruzando em grupos (que se comprimem e que se expandem) as avenidas, quando tanto aos automobilistas quanto aos pedestres é urgente chegar às suas casas, e é a hora em que os assassinos saem e as vítimas os seguem.
Realmente, que histórias me contam os pintores?
O vazio interessante, a forma e a cor fixas, no melhor dos casos a paródia do movimento. Pinturas que só servirão de anúncios luminosos nas salas dos engenheiros e médicos que as colecionam.
O pintor que se acomoda em uma sociedade que a cada dia é mais “pintora” que ele mesmo, e aí é onde ele se encontra desarmado e passa por palhaço.
Se um quadro de X é encontrado em alguma rua por Mara, esse quadro adquire a categoria de coisa divertida e comunicante; é um salão tão decorativo como as cadeiras de ferro do jardim do burguês / questão de retina? / sim e não / mas melhor seria encontrar (e por um tempo sistematizar aleatoriamente) o fator detonante, classista, cem por cento propositivo da obra, em justaposição aos valores de “obra” que a estão precedendo e condicionando.
O pintor deixa o estúdio e QUALQUER status quo e cai de cabeça na maravilha / ou se põe a jogar xadrez como Duchamp / uma pintura didática para a mesma pintura / E uma pintura da pobreza, grátis ou bastante barata, inacabada, de participação, de questionamento na participação, de extensões físicas e espirituais ilimitadas.
A melhor pintura da América Latina é a que ainda se faz a níveis inconscientes, o jogo, a festa, o experimento que nos dá uma visão real do que somos e nos abre ao que podemos será a melhor pintura da América Latina é a que pintamos com verdes e vermelhos e azuis sobre nossos rostos, para reconhecer-nos na criação incessante da tribo.
*
Experimentem largar tudo diariamente.
Que os arquitetos deixem de construir cenários para dentro e que abram as mãos (ou que as empunhem, depende do lugar) para esse espaço de fora. Um muro e um telhado adquirem utilidade quando não só servem para dormir ou evitar chuvas senão quando estabelecem, a partir, por exemplo, do ato cotidiano do sonho, pontes inconscientes entre o homem e suas criações, ou a impossibilidade momentânea destas.
Para a arquitetura e a escultura os infrarrealistas partimos de dois pontos: a trincheira e a cama.
*
A verdadeira imaginação é aquela que dinamita, elucida, injeta micróbios esmeraldas em outras imaginações. Em poesia e no que seja, o começo do assunto tem que ser o começo da aventura. Criar as ferramentas para a subversão cotidiana. As temporadas subjetivas do ser-humano, com suas belas árvores gigantes e obscenas, como laboratórios de experimentação. Fixar, entrever situações paralelas e tão dilacerantes como um grande arranhão no peito, no rosto. Analogia sem fim dos gestos. São tantas que quando aparecem os novos nem nos damos conta, ainda que estejamos fazendo/olhando em frente a um espelho. Noites de tormenta. A percepção se abre mediante uma ética-estética levada até às últimas.
*
As galáxias do amor estão aparecendo na palma de nossas mãos.
- Poetas, joguem as tranças (se as tiverem)
- Queimem suas porcarias e comecem a amar até que cheguem aos poemas incalculáveis.
Não queremos pinturas cinéticas, mas sim enormes entardeceres cinéticos.
Cavalos correndo a 500 quilômetros por hora.
Esquilos de fogo pulando de árvores de fogo.
Uma aposta para ver quem pisca primeiro, entre o nervo e a pílula sonífera.
*
O risco sempre está em outra parte. O verdadeiro poeta é o que sempre está abandonando-se a si mesmo. Nunca por muito tempo no mesmo lugar, como os guerrilheiros, como os ovnis, como os olhos brancos dos prisioneiros da prisão perpétua.
Fusão e explosão de duas margens: a criação como um graffiti resolvido e aberto por um menino louco.
*
Nada mecânico. As escalas do assombro. Alguém, talvez o Bosco, rompe o aquário do amor. Dinheiro grátis. Doce irmã. Visões levianas como cadáveres. Little boys talhando de beijos a dezembro.
*
Às duas da manhã, depois de ter estado na casa de Mara, escutamos (Mario Santiago e alguns de nós) risos que saíam da penthouse de um edifício de 9 andares. Não paravam, riam e riam enquanto nós embaixo dormíamos apoiados em várias cabines telefônicas. Chegou um momento em que só Mario seguia prestando atenção aos risos (a penthouse é um bar gay ou algo parecido e Darío Galicia havia nos contado que está sempre vigiado por policiais). Nós fazíamos chamadas telefônicas mas as moedas eram feitas de água. Os risos continuavam. Depois que nos fomos desta colônia, Mario me contou que realmente ninguém havia rido, eram risos graduais e lá em cima, na penthouse, um grupo reduzido, ou talvez só um homossexual, havia escutado em silêncio seu disco e nos havia feito escutá-lo.
- A morte do cisne, o último canto do cisne, o último canto do cisne negro, não estão no Bolshoi senão na dor e na beleza insuportável das ruas.
- Um arco-íris que começa num filme de má morte e que termina numa fábrica em greve.
- Que a amnésia nunca nos beije na boca. Que nunca nos beije.
- Sonhávamos com utopia e acordamos gritando.
- Um pobre vaqueiro solitário que retorna à sua casa, que é a maravilha.
*
Fazer surgir as novas sensações – subverter a cotidianidade.
O.K.
LARGUEM TUDO NOVAMENTE
LANCEM-SE PELOS CAMINHOS.

Roberto Bolaño, México, 1976.

O peixe amarelo - Herberto Hélder

Era uma vez um pintor que tinha um aquário com um peixe vermelho. Vivia o peixe tranquilamente acompanhado pela sua cor vermelha até que principiou a tornar‑se negro a partir de dentro, um nó preto atrás da cor encarnada. O nó desenvolvia‑se alastrando e tomando conta de todo o peixe. Por fora do aquário o pintor assistia surpreendido ao aparecimento do novo peixe.
O problema do artista era que, obrigado a interromper o quadro onde estava a chegar o vermelho do peixe, não sabia que fazer da cor preta que ele agora lhe ensinava. Os elementos do problema constituíam‑se na observação dos factos e punham‑se por esta ordem: peixe, vermelho, pintor – sendo o vermelho o nexo entre o peixe e o quadro através do pintor. O preto formava a insídia do real e abria um abismo na primitiva fidelidade do pintor.
Ao meditar sobre as razões da mudança exactamente quando assentava na sua fidelidade, o pintor supôs que o peixe, efectuando um número de mágica, mostrava que existia apenas uma lei abrangendo tanto o mundo das coisas como o da imaginação. Era a lei da metamorfose.
Compreendida esta espécie de fidelidade, o artista pintou um peixe amarelo.


Herberto Hélder, Os passos em volta, Assírio e Alvim

A Última árvore – Alexandre O’Neill





“Recordo o senhor Leitão, amigo e defensor da Árvore, publicista que opuscularmente se produzia. O senhor Leitão postara-se ao lado da Árvore tal como alinhara com o Bem. Não há aqui pardal de troça. A candura do senhor Leitão, se a entendo agora, era aquele amor da natureza que o Romantismo exaltara, só que amor minorado e escuteiro, mais a procurar assinantes que a arrebanhar partidários. Todavia, não escasseava formosura, e até um certo arroubo, ao panegírico da Árvore que o plumitivo Leitão ia traçando, e eu estremecia de horror e de prazer ao dar-me conta, pela mão dele, que, além de frutos, além da sombra (amiga), além da madeira do berço, a Árvore me fornecia as tábuas para, na última viagem, eu aparelhar.
Quando o conheci pessoalmente (primeiro, aconselhara-me com ele por correspondência sobre a forma de organizar um herbário) tive a impressão de que aquele homem já havia sido árvore, e pensei que, tal como sucede entre o homem e o seu cão, Leitão incorporara à sua própria estrutura certos atributos arbóreos. Se assim era, devia existir algures, pela regra da interacção, uma árvore parecida com o homem Leitão. Afeiçoei-me tanto a essa ideia que, quando nos encontrávamos, lhe perguntava sempre:
- Então como vai, como está a sua Árvore?
Leitão sacudia os ramos e, a despassarar-se, ria.
Ora esta bondosa figura, que concentrava na Árvore o seu límpido amor pela natureza, meteu-se a caminho da morte, quando a soube certa e aprazada, de uma forma que, embora comum, nele podia dizer-se estranha.
Daniel Leitão desaparecera do seu «escritório» no Café Chiado. O tinteiro e a pena que o velho Pina lhe guardava, a mesa em que escrevia seus longos folhetins florestais (A Sombra das Boas Árvores) eram como desolados adereços à espera do protagonista.”

(Alexandre O´Neill, A Última Árvore: Uma Coisa em Forma de Assim, Editorial Presença, Lisboa, 1985).