A amnésia
Cheguei a casa no final do dia. Cansada, abri a porta e arrastei-me para dentro do minúsculo apartamento em que habito, atirando os sapatos para um canto e a chave para o móvel de entrada. Assim que dei o primeiro passo, gritei. Uma dor lancinante percorreu-me o pé. Ergui-o e vi bocadinhos brilhantes de vidrinhos que tornavam a planta do meu pé simultaneamente dolorosa e colorida.
Tentei limpar o pé para travar o sofrimento e, nesse momento, constatei que os vidrinhos estavam por todo o lado. Alguém tinha entrado, invadido o meu espaço e destruído os meus escassos objetos pessoais e decorativos. Aminha bela caixinha de música, que me ofereceram no tempo em que eu ainda festejava o meu aniversário, o canivete suíço que comprei numa feira de artesanato, o relógio de cuco, que não funcionava mas era de um azul extravagante que me hipnotizava, o mapa em que estavam marcadas as poucas viagens que fizera … tudo destruído. Tudo! O meu diário, aberto, a minha intimidade exposta, com algumas folhas rasgadas, o quadro abstrato que estava na sala e que me relaxava quando o observava, embora nunca o tenha percebido, pois nele havia um lago ao fundo com aquilo que se assemelhava a ossos na berma. Tudo rasgada, esfacelado.
Enquanto o sangue escorria do meu pé, ouvi um eco forte na minha cabeça e senti que desmaiava. Acordei. Olhei em volta. Não reconheci nada. Escutei uma voz que dizia: “Sofre de amnésia! Vou-lhe receitar um medicamento que a vai pôr boa. Tem que tomar …”. E desmaiei novamente.
14.10.2011
Rosa Lídia Camarinha da Silva
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