Seleccionar, ordenar, singularizar
Com verdade, deve dizer-se que a narração e a descrição são inseparáveis. Esta última vive sobretudo como "excerto" dentro do mundo narração, embora com algumas especificidades. Por outro lado, a descrição, tal como a entendemos hoje, corresponde a um registo que, desde o final do século XVIII - com destaque para o período romântico já no século XIX - aparece ligado à experiência da paisagem e de uma nova ideia de espaço (que, de certo modo, ainda é razoavelmente actual)...
Entendemos por descrição a "representação verbal de um objecto, ser, coisa, paisagem ou sentimento, através da indicação dos seus aspectos mais característicos, dos seus traços predominantes, dispostos de tal forma e em tal ordem, que, do conjunto deles, resulte uma impressão singularizante da coisa descrita, isto é, do quadro, que é a matéria da descrição.
Ao contrário da lógica do inventário, o detalhe, o pormenor e a minúcia exagerados não traduzem de modo nenhum quilo que é a natureza da descrição. O objectivo da descrição não é, pois, recensear e elencar todos os elementos visíveis num dado objecto ou paisagem, mas sim seleccionar apenas alguns deles tendo como fim comunicar uma impressão que seja capaz de radiografar a alma desse objecto ou paisagem.
A descrição deverá assim criar um texto sumário, impressivo e individualizado que corresponda, de algum modo, ao todo que esteve na frente dos olhos de quem descreveu. Nesta medida, a descrição pouco tem a ver com a fixação fotográfica de um dado ângulo do real, na medida em que se torna muito mais económica na interpretação que faz dos dados que estiveram, a certa altura, em face da objectiva.
À lógica da cópia (analógica ou digital), a descrição impõe, portanto, a mimese, a condensação, a concisão funcional.
A descrição, enquanto técnica de escorço, dá normalmente origem a um texto que se pauta pela veracidade e pela autenticidade, embora o fundamental no enunciado descritivo seja sempre a escolha dos atributos que melhor consigam captar o âmago da realidade observada, transpondo para o leitor aquele tipo de elementos que mais suscitam a emoção e a sensorialidade (dados perceptivos, olfactivos, tácteis, físicos, sonoros, somatossensoriais, etc.). Quanto mais variada for a natureza dos elementos agregados e mobilizados para o quadro descritivo, mais funcional e rica será também a descodificação do próprio texto descritivo...
Retirado de:
Luís Carmelo - Manual de escrita criativa, Publicações Europa-América, Lisboa, 2005.
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