Observo a tela de Diego Rivera, Casa Sobre a Ponte. Procuro fixar o todo da representação. Busco o sentido no diálogo com a arte. No meu corpo desenha-se uma inquietude, a emoção emerge libertando o momento das teias da racionalização. O olhar, já cativo dos jogos de luz e sombra que o pintor fixou, focam, instintivamente, a claridade prometedora que se oferece para lá da lua escura desenhada na junção da casa com o rio. Logo transmutada em cabeça de mulher de rosto dormente, entalado entre reflexos apertados.
Sinto a asfixia do espaço-tempo. O corpo comprimido entre as paredes das casas altas de janelas cerradas e o muro robusto. Coloco-me no lugar do artista. Caminhando por uma rua estreita, ladeada de casas gastas pelas horas inexoravelmente escoadas. Chegando a uma outra ponte, daquelas como em Veneza abundam, com a diferença de esta não ter saída, nem duas margens de rio, apenas uma, a exigir a captação do momento, a observação.
Um agudo reflexo mental traz-me à memória, O Grito, de Munch. Levo as mãos à cabeça abrindo os maxilares até ao limite do possível. Solto um grito surdo, encarnando a personagem de Munch. Enquanto o artista derrama largas pinceladas no muro que se encontra do meu lado direito. A árvore, companheira do nosso frenesim, grita, emaranhando os ramos. Enlouqueçamos juntos, ou libertemo-nos das raízes que nos aprisionam, penso.
O instinto desconfia da quietude das águas, das cores quase quentes, do silêncio, da tranquilidade das janelas cerradas. Nem o reflexo da luz solar sobre o rio, desenhando um corpo de mulher-animal sustendo entre os braços a circularidade do mundo, nem as buganvílias cor de fogo que trepam pela parede da casa indo além do quadro, sossegam o co-criador.
Perante a obra adivinho e recrio as emoções do artista, que são as minhas próprias emoções. Somos espelhos perante realidades irreais, mas cognoscíveis. Cruzamos experiências e conhecimentos. A estagnação da vida, que emerge do todo que observamos na tela, desassossega. Apenas a luz que está para lá das paredes sombrias e do arco da ponte nos fala de esperança. Do regresso ao ventre materno, à casa, como ponte de passagem para renascer. Num eterno retorno às promessas de luz e vida.
Conceição Oliveira

Texto Muito Bom, narrativo, perspicaz e inflamado de muitas emoções, é muito boa a imagem do desassossego, mas também a de retorno ao ventre materno, que as cores quentes sugestionam, muito bem captadas e percepcionadas neste texto, muita intensidade e força nesta frase: "Nem o reflexo da luz solar sobre o rio, desenhando um corpo de mulher-animal sustendo entre os braços a circularidade do mundo, nem as buganvílias cor de fogo que trepam pela parede da casa indo além do quadro, sossegam o co-criador" -A ideia e sugestão da mulher-animal é muito sugestiva, e parece ser como um epicentro bem forte deste texto onde a poética se alia muito bem à narrativa - Muito interessante a ligação a Munch e ao grito da personagem
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