A nortada lançou-me para este recanto, comprimido entre a parede de madeira do bar, na praia, e a debilidade do corpo. Em posição fetal, aconchego o rosto entre os joelhos descarnados, escondendo a dor que me corrói.
O rumorejar da maré ecoa dentro do meu cérebro. No peito, qual velha caixa de música, o coração bate ao compasso do quebrar das ondas e dos pensamentos desprendidos. Decomponho cada elemento: o som do mar, o vento, o ar frio, o tiritar do corpo, o sangue ainda quente nas veias frágeis... Admiro a capacidade que ainda mantenho de flutuar através do pensamento. Como que recusando a inevitabilidade do fim anunciado.
Sinto a cabeça a aquecer sob a cabeleira desgrenhada e suja. Os raios de sol mostram-se pródigos. Apesar das nuvens carregadas e cinzentas, os raios solares abrem espaços por onde verte o calor que me penetra as roupas gastas, espevitando a vida. Ergo a cabeça com reconhecido agrado, e distendo as pernas. Sorvo o intenso odor a maresia. Enquanto enxoto a miséria que escorre pela areia, mergulho no mar das memórias antigas.
A infância perfeita. Os olhos do tempo são generosos. Enfatizam ritos triviais da quotidianidade, transformando-os em momentos singulares. Traçados entre a solicitude de gestos e a delicadeza de cheiros e afagos. Raízes que nos prendem até à eternidade. Mesmo quando a seiva secou e já não somos passado nem futuro, eis que emerge um resquício de luz. Interioridade reflexiva que teima em permanecer agarrada ao ser.
A mesma luz que flamejava nos momentos mais altos da minha juventude. Atiçando vontades de viver, de conhecer o mundo. Que foi elo de ligação com o João, amigo de sonhos e de dias inesquecíveis. Quando junto ao mar projectávamos aventuras e desejos, entrelaçando gargalhadas com ideias malucas. Ou naqueles outros dias em que as nossas bicicletas ganhavam asas, subindo e descendo a montanha, entre cumplicidades suadas.
Dias felizes onde não entravam os ruídos da sociedade adulta, excepto na exigência da observância de regras ditadas pelos pais, pelos professores. Ruídos que se foram instalando na minha vida, silenciosamente. Os primeiros pêlos púbicos, a voz balançando entre agudos e graves, a primeira paixão. A luta de vontades. A experimentação do proibido. Voragem de busca de mais e mais adrenalina, face ao pavor do vazio, do sem sentido em que tudo em volta se foi transfigurando.
Vertigens tecidas entre realidade e ficção, num caldo de alienação gradual. Do agradável encontro descomprometido com as drogas, até ao abraço fatal, final. Apagando aos poucos a intensidade do brilho dos olhos do meu avô, orgulhoso quando me ensinava o passado, desenhando-me o futuro. Emudecendo o som do grito das gaivotas e das cagarras, que ecoava em cascata por entre as rochas e os túneis de vento, na montanha da ilha onde nasci. Metamorfoseado em estridentes rasgos de loucura e inacção.
Por vezes, inesperadamente, acontece o silêncio... e volto àquela imensidão mansa. Mas o que acorre, frequentemente, é as vozes e sons misturarem-se dentro da minha cabeça, queimando o passado.
A praia continua deserta. Sinto frio. Tenho saudades de casa, da temperatura amena, da voz cálida da minha mãe, da cama no quarto confortável. Voltam desejos antigos. O Sol, encoberto pelas nuvens, continua a recriar no mar matizes de cinzento interrompidos pela alvura da espuma, no quebrar das ondas.
A boca seca incomoda-me. Olho a imensidão das águas, ao meu alcance, contudo, tão inúteis face à minha sede.
Adormeci. Acordo liberto da noção do tempo que decorreu. Saí do tempo algures, no passado.
Recordo as grutas da minha infância. Escavadas nas rochas de basalto. Os jogos de luz e cor nas pequenas estalactites e na sinuosidade das marcas deixadas pela escorrência da lava num passado longínquo. A ribeira, moldada pela lava no corpo da terra, impressiona e espicaça o imaginário. Gerador de lendas. Histórias que se escutam acerca dos sons que daí emanam em noites de tempestade. A minha Avó a benzer-se, e eu a encolher-me por entre cobertores quentes, cerrando os olhos, como que querendo calar a voz do monstro.
A convicção firme da minha mãe e da minha avó na existência do monstro, O Cavalum, impressionava. De tal modo que eu acabava impressionado comigo próprio. Com o meu medo. Só a claridade do sol me dava coragem para troçar de tamanhas crendices.
O ladrar de um cão interrompe as minhas reflexões. Observo-o. Os dentes brancos confrontam-me, emoldurados pelo preto do focinho e o pêlo castanho pincelado de branco. Não lhe noto convicção no olhar nem na voz. Um boxer gordo, demasiado gordo... leva a dona pela trela. Jovem, a rondar a minha idade. Passam por mim. Ela espreita com olhar furtivo. Afastam-se em diagonal, em direcção à linha de água. Observo-a ao longe, soltando-o. Contra o horizonte, o vento joga com a sua cabeleira ruiva, farta e ondulada.
Éolo traz até mim ínfimas gotas de água salgada. Sacudindo, procuro aliviar o corpo dorido. A mulher dos cabelos fartos está de partida. Passa ao largo. Observo-a. É evidente que se esforça para me ignorar. Apenas o cão me olha de longe, sem ladrar.
Daqui, da marginalidade onde habito, aprendi a linguagem contida nos mais pequenos gestos. Quanto mais as pessoas se afastam de mim, e eu delas, mais límpida é a comunicação.
Mergulho as mãos na areia. Depois, elevo-as e liberto os incontáveis grãos que escorrem devagarinho por entre os dedos ossudos revestidos de pele seca. Repito o gesto, até ao esquecimento. Até que o rasto da minha existência neles se perde. Decomposta em ínfimas partículas que se ignoram entre si. Para trás fica a família, o regresso a casa, a Ilha...
“Mãe, as bolas de sabão que eu sopro para o ar têm o pôr-do-sol lá dentro! Vês? São lindas, não são?”. O vento amainou. Quase poderia jurar ter escutado a voz da minha mãe, trazida pelo mar, repetir num tom suave e quente, por entre os grãos de areia em que me fundi: “Pedro, volta para casa. Estamos à tua espera...”

Muito, Muito Bom, a poética alia-se à narrativa numa respiração muito calma, todo o texto transborda emoções, desenlace muito bom
ResponderEliminar“Mãe, as bolas de sabão que eu sopro para o ar têm o pôr-do-sol lá dentro! Vês? São lindas, não são?”